terça-feira, 19 de março de 2019

azul


Acordei e senti-me velha. No espelho vi-me velha. Onde foi o sentido da jovialidade que me acorda todos os dias? Deixou-me hoje. Só por hoje, em que deixei entrar um raio de tristeza, misturado com o vazio do azul. O azul tem por regra o conforto, mas hoje não. Hoje aumenta o vazio da existência, onde a satisfação e alegria não entram. Nos outros dias, que não hoje, a melancolia é afastada e a busca da simplicidade enche o coração. Mas hoje não. Hoje o céu não é cinzento, mas azul vazio, azul inquietante, azul que envelhece.

* vicent van gogh - oliveiras com alpilles ao fundo, 1889

sexta-feira, 8 de março de 2019

certifiquem-se que usam pó para fixar a maquilhagem

O artigo de opinião de Marisa Matias no DN, faz uma associação entre um conselho dado num programa emitido pela televisão pública marroquina (como disfarçar marcas de agressão com maquilhagem) na véspera do dia internacional pela eliminação da violência contra as mulheres . Nem de propósito a associação de juízes de portugal, propõe um workshop de maquilhagem para assinalar o dia 8 de março - dia internacional da mulher. O mesmo em que se assinala ou recorda mulheres que morreram por lutarem pela igualdade de condições de trabalho.
Curioso como tudo pode ser disfarçado. A pequenez dos que não respeitam os seus pares, a mesquinhez dos que não a punem e a leveza com que tudo pode ser branqueado ou melhor dizendo maquilhado.

quinta-feira, 7 de março de 2019

these are a few of my favorite things






a tua voz chega com a luz
e com tudo o que a pode entender
pega no passado e limpa-o
dá-lhe a transparência do presente

o nosso presente cada dia. 
sophia de mello breyner andresen

terça-feira, 5 de março de 2019

vai o viajante #18


O viajante tinha prometido que voltava a Amarante para  ver Amadeu e voltou. O museu que acolhe algumas das suas obras é fantástico e acolhedor. Por conta das celebrações do centenário da sua morte, estavam expostas duas obras vindas da Fundação Caloust Gulbenkien: a cosinha de manhufe e a máscara de olho verde. O viajante sentiu que ganhou o dia. Além de Amadeo há obras extra do movimento modernista português e nomes incontornáveis como júlio pomar, paula rego e uma descoberta recente para o viajante João Vieira ( que inspirado nos movimentos franceses, associa poesia e pintura). Recordou um poema inspirador deste artista : *

La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres.
Fuir ! là-bas fuir ! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux !
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux,
Ne retiendra ce cœur qui dans la mer se trempe,
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend,
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature !

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs !
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots…
Mais, ô mon cœur, entends le chant des matelots !

Viu tudo e voltou de novo a Amadeo. Seguiu a sua cronologia, a vida em Manhufe, o apoio do tio, o  estudo de belas-artes em Lisboa, a partida para Paris, o casamento com Lúcia ( fiel depositária da sua obra)  o regresso ou a guerra e a morte em Espinho.
O viajante lembra os tempos de história de arte com uma professora muito querida mas muito fã do barroco e pouco conformada em ensinar, no semestre seguinte, arte contemporânea. Valeu-lhe um outro encorajamento para se confrontar com a complexidade e valor das cores e das formas. Amarante fica. A viagem continua... em retrocesso cronológico. 

* máscara de olho verde, 1915
* stéphane mallarmé, 1865 

domingo, 17 de fevereiro de 2019

domingo, 27 de janeiro de 2019

memória


"Foram precisamente as privações, as pancadas, o frio, a sede, durante a viagem e depois; Não a vontade de viver, nem uma resignação consciente : pois são poucos os homens capazes disso, e nós mais não éramos que uma vulgar amostra de Humanidade." 

sábado, 19 de janeiro de 2019

para não variar


Todos os anos acontece.."mete-se o natal e de modos que só para janeiro". E agora?  que dizer? é tarde para formular desejos e fazer balanços, embora sempre me persiga a mania de inventariar tudo, guardar bilhetes, postais, escrever as frases de um livro, organizar tudo na caixa dos tesouros que se estende até este blogue ou as que ficam só nos cadernos de apontar a vida. Há uns tempos que algo mais me persegue.
Calma. é só uma ideia. Esta ideia dos círculos de kandisnsky neste imenso espaço universal onde todos estamos. esta ideia de que está tudo unido, interligado, que tudo faz parte de um todo, que começa e acaba mas que reinicia, recomeça, redivive...e que ultrapassa as diferenças, as perdas, as linhas retas e simples, os torneados floridos, a pedra lisa ou a trabalhada, a guerra e a paz..mas não as dificuldades e os obstáculos, esses só podem ser vencidos pela vontade " tismshel" e por um mistério infinitamente superior, que permite ao Homem "olhar de frente tudo o que é grande". 

segue-se o inventário dos últimos tempos:  
livros - a bagagem do viajante (josé saramago), o hipopótamo de Deus ( josé tolentino mendonça), o cavaleiro da dinamarca (sophia de mello breyner adresen), contos de natal (charles dickens) 
a substancia do amor e outras crónicas ( josé eduardo agualusa), a leste do paraíso ( jonh steinbeck) ;
séries - il paradiso di signori, norte e sul, sara, o barão negro;
filmes- roma, bird box, vaiana, idade do gelo, à procura de dory, la la land; 
música- the boxer (simn and garfunkel), wednsday morning pm (simon and garfunkel), mrs robinson (simon and garfunkel) ou todas do cd the essencial dos mesmos, non so degno  di te ( gianni morandi), piu bella cosa non che ( eros ramazzoti), new light (jonh mayer); 
e
tudo o que nos faz tombar do cavalo e nos ergue dos infundos do sofá doméstico.